Você já reparou que na hora de escolher o jantar, a roupa nova ou até o próximo passeio do fim de semana, quem dá a palavra final em muitas casas brasileiras tem menos de 15 anos? Isso não é impressão. É o que os dados mostram. A geração alpha, formada por crianças nascidas a partir de 2010, está redesenhando a forma como as famílias consomem. E o impacto disso vai muito além da gôndola de brinquedos.
Um estudo recente da L.E.K. Consulting, intitulado “A influência Alpha: como a mais jovem e conectada geração está direcionando o consumo dos pais”, trouxe números que confirmam o que muitos lares já vivem no dia a dia. A pesquisa foi feita com consumidores dos Estados Unidos, mas as tendências identificadas se espelham com clareza no comportamento das famílias brasileiras. Estamos falando de uma geração que não apenas pede, mas pesquisa, compara e argumenta antes de qualquer compra.
Quem é a geração alpha?
A geração alpha engloba os nascidos a partir de 2010, ou seja, filhos predominantemente de pais millennials (nascidos entre 1981 e 1996). Diferente de qualquer geração anterior, esses pequenos já chegaram ao mundo com telas na mão. Tablets, smartphones e assistentes de voz fazem parte do vocabulário deles antes mesmo da alfabetização. O acesso à informação é imediato, e isso muda tudo na relação entre pais e filhos.
O modelo familiar também se transformou. Aquela hierarquia rígida do “manda quem pode, obedece quem tem juízo” perdeu força. Segundo Maurício França, sócio da L.E.K. Consulting, “as gerações anteriores viviam uma relação muito mais hierárquica. Você dizia para eles fazerem, eles obedeciam. Agora tá uma relação mais de mão dupla.” Os pais millennials tendem a ouvir mais seus filhos, envolvê-los nas decisões e valorizar suas opiniões. Isso, naturalmente, se reflete nas escolhas de consumo.
O alcance da influência vai além dos brinquedos
Não surpreende que 68% das crianças tenham influência direta na escolha de brinquedos. Isso sempre existiu em algum grau. O que chama atenção no estudo da L.E.K. é a expansão desse poder de decisão para categorias que antes eram território exclusivo dos adultos.
A geração alpha influencia 63% das decisões sobre atividades extracurriculares, 61% das escolhas de vestuário e calçados e 53% das decisões sobre alimentação e bebidas da família. Produtos de beleza e cuidados pessoais também entraram no radar dos mais novos, impulsionados por tendências que circulam nas redes sociais. Estamos falando de crianças e pré-adolescentes que opinam sobre o que entra no carrinho do supermercado, sobre qual marca de tênis comprar e até sobre em qual esporte se matricular.
E esse comportamento não se restringe a famílias de alta renda. O próprio França destaca que “mesmo nas classes mais baixas ainda tem um percentual alto” de influência das crianças, dentro daquilo que o orçamento permite. A renda muda a diversidade de opções disponíveis, mas não elimina o poder de convencimento da criança.
As novas vitrines são digitais
Se as gerações anteriores descobriam novos produtos nos comerciais da TV aberta, durante os desenhos da manhã, a geração alpha faz isso no celular e no tablet. O processo de descoberta e desejo é quase inteiramente digital. Para as crianças de até 11 anos, o YouTube domina como principal canal de descoberta de marcas e produtos. Os vídeos de unboxing, reviews de brinquedos e conteúdos de criadores mirins são a vitrine dessa faixa etária.
Já para os pré-adolescentes e adolescentes, o TikTok e os influenciadores digitais assumem o protagonismo. O dado mais revelador talvez seja este: 30% dos jovens entre 15 e 17 anos já fazem compras sozinhos por meio de aplicativos de redes sociais. Não é mais só influência indireta. É compra direta, feita por um público que ainda não atingiu a maioridade.
O Brasil reforça essa tendência. O país registra um dos maiores tempos médios de uso de redes sociais do mundo, e crianças brasileiras são consumidoras ávidas de YouTube e TikTok. “A mídia está se tornando cada vez mais relevante”, pontua França. Para ele, os influenciadores representam, muitas vezes, “o contato mais forte que eles têm com uma marca, com uma experiência, e eles acabam influenciando muito.”
Pais millennials mudaram as prioridades
Para entender o poder da geração alpha, é preciso olhar também para quem está do outro lado da mesa. Os pais millennials trouxeram uma mudança significativa de prioridades em relação à criação dos filhos. De acordo com o estudo da L.E.K., 77% desses pais acreditam investir mais no desenvolvimento dos filhos do que seus próprios pais investiram neles. Mas o destino desse investimento mudou.
A saúde mental e emocional lidera as preocupações, com 74% dos pais millennials colocando-a como prioridade. Em seguida vem a saúde física, com 71%. O desempenho escolar, que durante décadas ocupou o topo da lista de preocupações parentais, agora aparece em terceiro lugar, com 63%. Como observa França, “você volta uns 15 anos, era só depois de todo o resto.” Essa inversão de valores reflete uma geração de pais que cresceu lidando com ansiedade, burnout e pressão por performance, e que busca proteger os filhos desses mesmos males.
Essa mudança de mentalidade tem implicações diretas no consumo. Pais preocupados com saúde mental investem mais em atividades de lazer, esportes, terapia infantil e produtos que promovam bem-estar. E, claro, consultam os filhos sobre o que faz sentido para eles.
O que isso significa para marcas e empresas
Ignorar o poder de decisão de uma criança de 10 anos é, neste momento, um erro estratégico. A geração alpha não é um público passivo que recebe mensagens publicitárias sem filtro. Eles pesquisam, comparam opções, acompanham criadores de conteúdo e formam opinião própria sobre marcas. Qualquer estratégia de marketing voltada para famílias que não considere essa dinâmica está deixando dinheiro na mesa.
Para o varejo, isso significa repensar a jornada de compra. O ponto de contato mais relevante não está necessariamente na loja física ou no comercial de TV. Está no feed do YouTube Kids, no vídeo viral do TikTok, no conteúdo de um influenciador que a criança acompanha diariamente. Marcas que conseguem se posicionar nesses espaços de forma autêntica, sem parecer forçadas ou manipuladoras, ganham vantagem competitiva real.
Outro ponto relevante é a questão dos valores. O estudo americano destaca que a geração alpha já demonstra atenção a práticas éticas das marcas, como produtos livres de testes em animais e preocupações com sustentabilidade. No Brasil, esse comportamento ainda é mais tímido e concentrado em determinadas regiões e faixas de renda, mas a tendência é de crescimento. Marcas que se anteciparem a essa demanda terão mais facilidade para conquistar essa geração quando ela se tornar consumidora direta com poder de compra próprio.
O impacto no marketing digital
Do ponto de vista do marketing digital, a ascensão da geração alpha como influenciadora de consumo exige adaptações em várias frentes. A segmentação de campanhas precisa considerar que a pessoa que vê o anúncio nem sempre é a pessoa que toma a decisão. Em muitos casos, a criança descobre o produto online e leva a demanda para os pais. O funil de conversão, portanto, tem um intermediário poderoso que nem sempre aparece nos dados tradicionais de analytics.
Estratégias de conteúdo também precisam evoluir. Criar conteúdo que fale simultaneamente com pais e filhos, ou que gere conversas dentro de casa, pode ser mais eficaz do que uma abordagem focada apenas no decisor financeiro. O uso de influenciadores que dialogam com o público infantil e adolescente, respeitando as regulamentações do CONANDA e do Código de Defesa do Consumidor, é uma via que merece atenção redobrada.
Plataformas como o YouTube e o TikTok oferecem formatos de anúncio que permitem alcançar essas audiências de forma segmentada. Mas o cuidado ético precisa ser proporcional ao alcance. Marketing para crianças carrega responsabilidades que vão além da performance. Transparência, respeito e adequação de linguagem são inegociáveis.
Como se preparar para essa realidade
O primeiro passo é aceitar que a geração alpha já é um ator relevante na decisão de compra. Não estamos falando de algo que vai acontecer daqui a cinco ou dez anos. Está acontecendo agora, nas casas de milhões de famílias brasileiras. Marcas que quiserem se manter competitivas precisam mapear em quais categorias seus produtos ou serviços são influenciados por crianças e adolescentes, e ajustar suas estratégias de comunicação e mídia de acordo.
Investir em presença digital consistente nos canais que essa geração consome é fundamental. YouTube e TikTok não são mais canais opcionais para marcas que vendem para famílias. São canais primários. Ao mesmo tempo, a comunicação com os pais millennials precisa refletir os valores que eles priorizam: saúde, bem-estar, autonomia dos filhos e transparência.
A integração entre dados, conteúdo e performance é o que vai separar as marcas que apenas observam essa tendência das que realmente capitalizam sobre ela. E para isso, contar com uma estratégia digital bem estruturada, baseada em dados reais e orientada por resultados, faz toda a diferença.
O momento de agir é agora
A geração alpha está ditando o consumo das famílias hoje. Não amanhã. A influência desses jovens consumidores se estende da alimentação ao vestuário, das atividades extracurriculares aos produtos de beleza. Os canais de descoberta migraram da TV para o YouTube e o TikTok. E os pais millennials, com suas novas prioridades centradas em saúde e bem-estar, estão mais abertos do que nunca a ouvir os filhos nas decisões de compra.
Para empresas que buscam crescer no ambiente digital e construir estratégias que acompanhem essas transformações, o caminho passa por entender profundamente esses novos comportamentos e traduzir esse entendimento em ações de marketing eficazes. Se sua marca precisa de uma parceria estratégica para navegar esse cenário com inteligência e dados, entre em contato com a Webcompany e descubra como transformar essas tendências em resultados reais para o seu negócio.